terça-feira, 10 de novembro de 2015

Temple Grandin

Temple Grandin é uma americana que sofre de autismo e que nasceu em uma família que decidiu não permitir que a garota passasse por situações que a inferiorizasse. Assim, ela frequentou diferentes escolas e a universidade, mesmo não acreditando que poderia se dar bem no instituto da graduação.

        Sua história virou um filme e o que poderia ter se tornado um dramalhão com o intuito de arrancar lágrimas dos mais sensíveis, acabou virando um relato maduro e emocionante do caminho percorrido por Temple, com as motivações que ela teve para continuar estudando e também com o que precisou enfrentar para que sua voz fosse escutada com atenção.

domingo, 23 de agosto de 2015

Natasha

Ela tinha planos viajar pelo país vendendo os quadros que pintava, mas a mãe insistia em dizer que o melhor era parar de ficar sonhando alto e ir procurar um emprego. Qualquer um. Atendente de lanchonete, auxiliar de biblioteca, operadora de caixa. Um emprego que a ocupasse por tempo o suficiente para impedi-la de ficar pensando em inutilidades. As palavras machucam, parece que nem todos percebem. Ou percebem e fazem questão de mutilar o próximo.
        Natasha não se deixou abater. Continuou pintando. Sabia que a mãe costumava pintar quando jovem e que parou quando engravidou de um homem casado que se recusou a assumir a paternidade do bebê. Na época, tinha um emprego “convencional”, mas também pintava no tempo livre. Tinha potencial.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Tainá

Aos 16 anos, Tainá conheceu um garoto no colégio, Henrique, um garoto de origem japonesa. Viraram amigos quase instantaneamente e a amizade evoluiu para um sentimento mais forte. Ele foi o primeiro namorado dela e a sintonia entre eles era inegável. Eles tinham vontade de conhecer os mesmos lugares, os planos profissionais e pessoais dos dois eram parecidos e tudo era lindo.

        Depois do colégio eles foram para a mesma faculdade e escolheram o mesmo curso, Jornalismo. Eles tinham planos de criar um site de coberturas de eventos cinematográficos juntos e pretendiam começar a desenvolvê-lo ainda na faculdade.

        Em uma festa promovida por colegas de faculdade, os dois fumaram maconha pela primeira vez. Tainá achou apenas legal, enquanto Henrique gostou mais, mas não entendeu o motivo de tanta gente fazer alarde em cima disso.

        Em outros eventos sociais, amigos ofereceram maconha a eles novamente. Tainá passou a recusar, não viu tanta graça na primeira vez e acredita que não veria na segunda ou na terceira. O Henrique passou a fumar sempre que lhe ofereciam a erva. Tainá não via problema algum nisso, fumar apenas em eventos sociais, uma ou duas vezes por mês não devia fazer mal.

        Aos poucos, Henrique começou a sair mais vezes com um rapaz que não era da turma deles, o Tadeu, que sempre tinha maconha. Tainá não gostava de sair com ele e, como muitas vezes o programa era assistir a lutas na casa de alguém ou jogar vídeo-game, ela preferia fazer outras coisas.


        Certa vez, a garota combinou de passar na casa do namorado depois de uma consulta médica, mas o médico teve uma emergência familiar e a consulta foi desmarcada, então ela foi pra casa de Henrique antes do esperado. Quando chegou ao quarto dele, ficou surpresa ao ver o namorado acompanhado do Tadeu cheirando cocaína.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Identidade

Mamãe diz que eu devia ser professora.
Papai sonha em me ver médica.
Titia acredita que meu futuro está no teatro.
Vovó já deixou claro que só serei feliz se me tornar advogada.
Querem que eu faça uma colcha com os retalhos dos sonhos que um dia foram deles.
E onde ficam os meus?
Nenhum deles está disposto a percorrer os caminhos que preciso para chegar a algo que eles desejam. Isso tudo me confunde.
Vou acabar virando um quadro pintado por desejos alheios. Não terei título, assinatura ou traços da minha personalidade.
Serei um amontoado de pequenas coisas e não serei nada.




domingo, 26 de julho de 2015

Tenha medo, sim!

Sempre ouço pessoas reclamando de quem tem medo de se envolver, de amar e de sofrer. Críticas duras mesmo, como se os prevenidos fossem egoístas.

        Talvez sejam mesmo, mas querem saber? Eles fazem bem ao sentirem medo.

        Só mesmo quem passou pelo sofrimento de perder um amor pode saber como é. Além disso, essa situação é diferente para cada um. Tem gente que sofre porque se interessou por alguém que não lhe retribui o interesse, tem gente que namorou e sugou o outro emocionalmente, até que um dia a pessoa deu um basta. Tem gente que sofre por ser tímido demais e não conseguir expressar seus sentimentos pelo próximo. E tem gente que ama, mas que não deixa de usar o cérebro, então prefere não continuar um relacionamento que pode prejudicá-lo.


       

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Quero

Vontade de ir, de ficar, de fugir, de amar.                                                            De me guardar, de desfrutar, de explorar e degustar.                                        Vontade de vencer o medo e a insegurança.                                                    Vontade de permanecer longe do desconhecido.                                                Afinal, quem inventou essa história de arrependimento?                                    Quem inventou o medo?                                                                                Quem inventou a indecisão?                                                                            Não desejo isso pra ninguém, não.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Marta

Marta não sabia se deveria seguir o próprio coração ou ser racional.
            Deixou-se ser levada pela emoção. Riu, chorou, conheceu a decepção, até que um dia disse a si mesma que nada daquilo estava certo e preferiu deixar que o cérebro mandasse em suas emoções.
            Foi tomada pelo tédio. Sentiu-se um robô. Percebeu que preferia as lágrimas.
            Já era tarde demais, não conseguia mais amar.
            “Não seja boba. Aquilo tudo foi apenas um treinamento. Agora eu estou bem forte, já podemos ir para os jogos de verdade”- ouviu seu coração dizer.
            Marta foi sem medo. Decepcionou-se novamente, chorou como nunca havia chorado e questionou-se “Tanto treinamento pra isso?”.

            Foi então que seu coração respondeu: “Pegadinha! Mas não se preocupe, um dia desses você aprende”.


domingo, 21 de junho de 2015

Cidadão do ano (Kraftidioten)

           Nem só de “filmes-cabeça” vive o cinema europeu. Pra muitos, isso não é novidade, mas para quem não está familiarizado com títulos da região, Cidadão do ano pode ser um bom começo para descobrir o que os noruegueses podem proporcionar.
            Com Stellan Skarsgård (Ninfomaníaca) na pele de Nils Dickman, acompanhamos um homem eleito cidadão do ano devido seu trabalho, que consiste em retirar e neve da gelada Noruega. Quando Nils fica sabendo da morte do filho, supostamente causa por uma overdose, ele resolve tirar a história a limpo.
            O que acontece a seguir é uma perseguição a cada um que pode estar envolvido na morte do rapaz. Nils, antes um cidadão pacato, se revela um homem com sede de sangue e de vingança.

sábado, 20 de junho de 2015

Cíntia (conto)

Cíntia acordou.
            Parecia que aquele seria mais um dia, igual aos anteriores. Corrida, trabalho na escola onde dava aulas, casa. Provavelmente o marido chegaria bem tarde, afinal era sexta-feira e ele ia querer beber até altas horas. “Melhor assim”, ela pensava. O problema era em que algum momento ele ia aparecer e, com isso, viria alguns tapas, discussões desnecessárias ou, até mesmo, o sexo forçado.
            Perguntou-se até quando aquilo iria durar. Perguntou-se onde estava a magia do amor que um dia sentiu pelo marido, do frio na barriga que sentiu nos primeiros encontros e no casamento.
            Sentia falta da proximidade da família e dos amigos. Naquele momento, o contato era somente com pessoas do dia a dia: colegas de trabalho, atendentes do supermercado, alunos e as poucas pessoas que correm tão cedo quanto ela. O lado bom da indiferença do marido é que ele mal notara quando Cíntia passou a acordar uma hora mais cedo três dias por semana para correr. Talvez o sono pesado de Fernando não o permita dar falta da esposa.
            Cíntia sentou na cama e ligou o celular. Como de costume, deu uma rápida olhada nas redes sociais. Não tem o costume de compartilhar fotos e opiniões, mas gosta de se sentir acessível a quem finge interesse.
            Uma postagem específica chamou a atenção de Cíntia. Um evento marcado para o fim daquela tarde. O lançamento do livro Eu sei, ela sabia, de Agatha Azevedo. Por que tudo aquilo, o título, a sinopse e o nome da autora, pareciam tão familiares? Era tão absurdo que até parecia mentira.
            Cíntia e a “autora” estudaram juntas na faculdade e aquela história foi escrita pela própria Cíntia. Na época, ela era uma ingênua e sonhadora estudante que acreditava ser possível alcançar as estrelas. Certa noite, após horas de estudos, quando a mente não aceitava mais nada, além de conversas despretensiosas ao som de Go lei it out, do Oasis, a moça confessou que tinha um romance pronto, que gostou de escrevê-lo, mas que estava incerta quanto ao seu potencial. Agatha, a suposta amiga, se ofereceu para ler o material e ficou com ele durante o resto do fim de semana.
            Na segunda-feira pela manhã se encontraram na faculdade e Agatha foi direta:
            - Não mostre isso a mais ninguém, ou darão risada na sua cara. Talvez, com um pouco mais de prática, você possa acabar melhorando, mas o que eu li definitivamente não será publicado por nenhuma editora. Jamais!
            Mais tarde, Cíntia chorou muito em seu travesseiro. Não contou a ninguém o que houve, não voltou a mencionar o romance que havia escrito antes de completar 20 anos e, aos poucos, começou a enterrar em seu coração o desejo de se tornar uma escritora.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A dobradinha musical de John Carney

            Em 2006, Carney dirigiu um filme intimista e poético, Apenas uma vez (Once), onde um músico toca pelas ruas de Dublin e conhece uma moça que vende flores. Um descobre o talento musical do outro e passam a escrever canções juntos. Os sentimentos e a bagagem emocional deles ficam evidentes nas letras sensíveis que surgem.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O que “Bling Ring” pode acrescentar?


            Sofia Coppola não é mais uma novata na direção.  Conseguiu construir uma carreira sólida e premiada desvinculada do peso do sobrenome. Logicamente teve algumas regalias ao crescer no meio de tanta gente ligada ao cinema, mas ter berço não significa ter talento.
            Seu trabalho divide opiniões. Eu mesma considero As Virgens Suicidas uma memorável estreia como cineasta e seu melhor filme. Tudo bem, Encontros e Desencontros pode ser considerado maravilhoso e ter o trunfo de um Oscar de Melhor Roteiro, mas a angústia das irmãs criadas com tanta repressão e o desespero delas me impressiona.
            Coppola leu o artigo “The Suspects Wore Louboutins”, escrito por Nancy Jo Sales e publicado na revista americana Vanity Fair, e resolveu fazer um filme sobre a audácia dos jovens que roubaram casas de celebridades entre 2008 e 2009.