Ela tinha planos viajar pelo
país vendendo os quadros que pintava, mas a mãe insistia em dizer que o melhor
era parar de ficar sonhando alto e ir procurar um emprego. Qualquer um.
Atendente de lanchonete, auxiliar de biblioteca, operadora de caixa. Um emprego
que a ocupasse por tempo o suficiente para impedi-la de ficar pensando em
inutilidades. As palavras machucam, parece que nem todos percebem. Ou percebem
e fazem questão de mutilar o próximo.
Natasha não se deixou abater. Continuou pintando. Sabia que a
mãe costumava pintar quando jovem e que parou quando engravidou de um homem
casado que se recusou a assumir a paternidade do bebê. Na época, tinha um
emprego “convencional”, mas também pintava no tempo livre. Tinha potencial.
Porém, ser mãe solteira não permite sobras de tempo. Não
permite o luxo de passar horas em um quadro ou organizar uma exposição para
mostrar a sua arte.
Assim, Natasha era constantemente repreendida, mas não
desistia do sonho. Cada um vive a sua vida e desse jeito o mundo segue girando.
Até que houve um incêndio em sua casa enquanto a garota
estava no colégio. Ninguém se machucou e nem tudo foi perdido, exceto seus
quadros. Todos eles foram consumidos pelo fogo e certamente as chamas começaram
em seu ateliê improvisado.
“Como alguém pode ter coragem de destruir os sonhos do outros
assim?”, se perguntou.
- Tchau, mãe. Não vou mais te lembrar constantemente das
consequências das suas escolhas e peço desculpas por ter consumido tanto o seu
tempo.
- Minhas escolhas? Eu não planejei uma gravidez aos vinte
anos e veja só você.
- Não tente me culpar por você ter ido para a cama com um
homem casado e não ter usado nenhum método contraceptivo. Já passou da hora de
você aceitar o que você mesma causou. Quem destruiu seus sonhos não fui eu, foi
você. Tchau.
Natasha foi embora. Passou a escrever, voltou a pintar e
descobriu o que é viver de sonhos.

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