domingo, 23 de agosto de 2015

Natasha

Ela tinha planos viajar pelo país vendendo os quadros que pintava, mas a mãe insistia em dizer que o melhor era parar de ficar sonhando alto e ir procurar um emprego. Qualquer um. Atendente de lanchonete, auxiliar de biblioteca, operadora de caixa. Um emprego que a ocupasse por tempo o suficiente para impedi-la de ficar pensando em inutilidades. As palavras machucam, parece que nem todos percebem. Ou percebem e fazem questão de mutilar o próximo.
        Natasha não se deixou abater. Continuou pintando. Sabia que a mãe costumava pintar quando jovem e que parou quando engravidou de um homem casado que se recusou a assumir a paternidade do bebê. Na época, tinha um emprego “convencional”, mas também pintava no tempo livre. Tinha potencial.

        Porém, ser mãe solteira não permite sobras de tempo. Não permite o luxo de passar horas em um quadro ou organizar uma exposição para mostrar a sua arte.
        Assim, Natasha era constantemente repreendida, mas não desistia do sonho. Cada um vive a sua vida e desse jeito o mundo segue girando.
        Até que houve um incêndio em sua casa enquanto a garota estava no colégio. Ninguém se machucou e nem tudo foi perdido, exceto seus quadros. Todos eles foram consumidos pelo fogo e certamente as chamas começaram em seu ateliê improvisado.
        “Como alguém pode ter coragem de destruir os sonhos do outros assim?”, se perguntou.
        - Tchau, mãe. Não vou mais te lembrar constantemente das consequências das suas escolhas e peço desculpas por ter consumido tanto o seu tempo.
        - Minhas escolhas? Eu não planejei uma gravidez aos vinte anos e veja só você.
        - Não tente me culpar por você ter ido para a cama com um homem casado e não ter usado nenhum método contraceptivo. Já passou da hora de você aceitar o que você mesma causou. Quem destruiu seus sonhos não fui eu, foi você. Tchau.
        Natasha foi embora. Passou a escrever, voltou a pintar e descobriu o que é viver de sonhos.

        

Nenhum comentário:

Postar um comentário