segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Tainá

Aos 16 anos, Tainá conheceu um garoto no colégio, Henrique, um garoto de origem japonesa. Viraram amigos quase instantaneamente e a amizade evoluiu para um sentimento mais forte. Ele foi o primeiro namorado dela e a sintonia entre eles era inegável. Eles tinham vontade de conhecer os mesmos lugares, os planos profissionais e pessoais dos dois eram parecidos e tudo era lindo.

        Depois do colégio eles foram para a mesma faculdade e escolheram o mesmo curso, Jornalismo. Eles tinham planos de criar um site de coberturas de eventos cinematográficos juntos e pretendiam começar a desenvolvê-lo ainda na faculdade.

        Em uma festa promovida por colegas de faculdade, os dois fumaram maconha pela primeira vez. Tainá achou apenas legal, enquanto Henrique gostou mais, mas não entendeu o motivo de tanta gente fazer alarde em cima disso.

        Em outros eventos sociais, amigos ofereceram maconha a eles novamente. Tainá passou a recusar, não viu tanta graça na primeira vez e acredita que não veria na segunda ou na terceira. O Henrique passou a fumar sempre que lhe ofereciam a erva. Tainá não via problema algum nisso, fumar apenas em eventos sociais, uma ou duas vezes por mês não devia fazer mal.

        Aos poucos, Henrique começou a sair mais vezes com um rapaz que não era da turma deles, o Tadeu, que sempre tinha maconha. Tainá não gostava de sair com ele e, como muitas vezes o programa era assistir a lutas na casa de alguém ou jogar vídeo-game, ela preferia fazer outras coisas.


        Certa vez, a garota combinou de passar na casa do namorado depois de uma consulta médica, mas o médico teve uma emergência familiar e a consulta foi desmarcada, então ela foi pra casa de Henrique antes do esperado. Quando chegou ao quarto dele, ficou surpresa ao ver o namorado acompanhado do Tadeu cheirando cocaína.
        Ela ficou enfurecida. O Tadeu saiu fora imediatamente, claro. E o que deixou a Tainá ainda mais chateada foi que, ao conversar com o namorado, descobriu que não era a primeira vez que ele fazia uso da droga. Eles conversaram muito e a Tainá deixou claro que eles deixariam de ser um casal se o garoto continuasse a fazer uso da droga.

        Eles continuaram juntos por mais seis meses, mas Henrique se distanciava cada vez mais. Pouco se dedicava ao projeto que tinha com a namorada, saía cada vez mais com Tadeu, estava sempre com aparência de largado, as notas na faculdade começaram a cair e a situação ficou insustentável. Tainá percebeu que a sintonia entre eles já não existia e, depois de três anos juntos, ela terminou o namoro.

        Henrique abandonou a faculdade pouco antes do fim daquele semestre e saiu da vida de Tainá. Ficou ainda mais próximo do Tadeu, começou a fazer uso de grande quantidade de álcool, parou de trabalhar na padaria do pai e foi decaindo cada vez mais. Acabou indo para uma clínica para dependentes químicos, o que fez com que Tainá se sentisse culpada. A mãe da jovem sempre disse que ela agiu corretamente, que não poderia ter deixado o namorado influenciá-la negativamente e ser um obstáculo em seus objetivos, mas Tainá pensa de maneira diferente, acredita que poderia tê-lo afastado das drogas. No fim, ela não seguiu com os antigos planos. Formou-se em Jornalismo, mas passou a escrever para uma revista de música sobre pop, que também sempre foi uma paixão sua. Trabalha bem, mas é fato que a área não é a que sempre sonhou.

        Enfim, o tempo passou e Tainá nunca mais se envolveu tão intensamente com outra pessoa. Houve outros rapazes, é claro, mas nunca mais houve um namorado, apenas pessoas com quem ela passou um tempo. O brilho no olhar, característica dos sentimentos mais fortes e intensos, se extinguiu.

        Passou-se seis anos e eis que há poucas semanas, Tainá parou em um café depois do trabalho para esperar uma amiga, que a acompanharia ao teatro. Estava sentada tranquilamente tomando café enquanto lia um livro, quando ouviu uma voz familiar dizendo “E não é que o dia reservou uma boa surpresa pra mim?”. Ela ergueu os olhos e lá estava, Henrique. O frio na espinha que sentiu fez com que se lembrasse de como é ter dezesseis anos. Henrique estava diferente, um pouco mais magro, com a aparência como se estivesse em “reconstrução”.

        Ele sentou, eles conversaram e foi mágico. Era como se o tempo não tivesse passado e, ao mesmo, tempo parecia que havia se passado um século. Ela falou sobre o trabalho, ele falou sobre a recuperação, os planos para o futuro e a vontade de voltar a estudar, apesar da incerteza do curso (estava considerando Arquitetura). A amiga de Tainá chegou, eles se despediram, mas combinaram de um adicionar o outro nas redes sociais, o que foi feito no mesmo dia.

        Com o costume de procurar saber o que o outro está fazendo, eles continuaram virtualmente a conversa que começou no café, até que Henrique perguntou se eles poderiam se encontrar para tomar um suco, um chá, um café ou qualquer outra coisa que permitisse uma conversa agradável. Tainá hesitou um pouco, se sentia culpada pelo que aconteceu no passado e, ao mesmo tempo, receosa. Será que o conto de fadas estava voltando pra sua vida ou aquilo tudo só a decepcionaria? Aceitou e passou os dias seguintes muito ansiosa. Combinaram de se encontrar sexta à noite no mesmo café onde se viram outro dia, às seis da tarde.

        Ela chegou pontualmente e esperou por quase uma hora, mas ele não apareceu. Ela mandou mensagens, mas não houve resposta. Tainá foi embora com os olhos cheios de lágrimas e o coração pesado. No dia seguinte recebeu uma ligação e soube o motivo da ausência de Henrique.

        Ao perceber que ele e Tainá poderiam ter um futuro juntos, Henrique tomou uma decisão. Contou a um amigo que para não errar novamente com a ex-namorada, ele não poderia se aproximar mais de qualquer tipo de droga e ele estava feliz em ter a opção de renunciar a isso e ter uma nova chance com ela, nem todo mundo tem essa sorte. Porém, ele queria uma despedida. Queria cheirar cocaína um dia antes do encontro, uma última vez para largar aquilo tudo e ser feliz.

        Foi então que ele procurou Tadeu de novo. Uma última vez. Comprou cocaína. Muita. Foi pra casa e cheirou tudo o que conseguia e bebeu muito, seu corpo não suportou e ele teve uma overdose. No que deveria ser seu processo de desintoxicação, no momento em que mais quis sair daquele inferno do vício, ele morreu. O mundo parecia mais injusto do que nunca naquele momento.

        A morte é algo tão definitivo que dói na alma de quem fica. Se lamentar pelo ex-namorado que se viciou em drogas é uma coisa, mas saber que ele nunca mais poderá vir ao seu encontro, que por mais que você se esforce, nunca mais o verá com vida é doloroso demais. Tainá permanece inconsolável. O pai de Henrique foi visitá-la e pediu para que ela fosse ao enterro, pedido que a jovem atendeu de bom grado, mesmo sua mãe reprovando a ação. Afinal, além de toda a situação, que já é muito pesada, ver o rapaz morto deve ter causado algo irreversível no coração dela.

        Conviver com a certeza de que a morte é o destino de todos já é bizarro o suficiente. Mas ver morrer alguém com quem você escolheu viver, dividir seus sonhos, alegrias e planos deve ser algo além do que o ser humano pode suportar. É uma covardia perder a vida depois de voltar a ter a capacidade de fazer planos.

        Tainá conseguiu pegar alguns dias de folga no trabalho por causa do luto.

        Três dias. É esse o tempo dura o luto?


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