quarta-feira, 24 de junho de 2015

Marta

Marta não sabia se deveria seguir o próprio coração ou ser racional.
            Deixou-se ser levada pela emoção. Riu, chorou, conheceu a decepção, até que um dia disse a si mesma que nada daquilo estava certo e preferiu deixar que o cérebro mandasse em suas emoções.
            Foi tomada pelo tédio. Sentiu-se um robô. Percebeu que preferia as lágrimas.
            Já era tarde demais, não conseguia mais amar.
            “Não seja boba. Aquilo tudo foi apenas um treinamento. Agora eu estou bem forte, já podemos ir para os jogos de verdade”- ouviu seu coração dizer.
            Marta foi sem medo. Decepcionou-se novamente, chorou como nunca havia chorado e questionou-se “Tanto treinamento pra isso?”.

            Foi então que seu coração respondeu: “Pegadinha! Mas não se preocupe, um dia desses você aprende”.


domingo, 21 de junho de 2015

Cidadão do ano (Kraftidioten)

           Nem só de “filmes-cabeça” vive o cinema europeu. Pra muitos, isso não é novidade, mas para quem não está familiarizado com títulos da região, Cidadão do ano pode ser um bom começo para descobrir o que os noruegueses podem proporcionar.
            Com Stellan Skarsgård (Ninfomaníaca) na pele de Nils Dickman, acompanhamos um homem eleito cidadão do ano devido seu trabalho, que consiste em retirar e neve da gelada Noruega. Quando Nils fica sabendo da morte do filho, supostamente causa por uma overdose, ele resolve tirar a história a limpo.
            O que acontece a seguir é uma perseguição a cada um que pode estar envolvido na morte do rapaz. Nils, antes um cidadão pacato, se revela um homem com sede de sangue e de vingança.

sábado, 20 de junho de 2015

Cíntia (conto)

Cíntia acordou.
            Parecia que aquele seria mais um dia, igual aos anteriores. Corrida, trabalho na escola onde dava aulas, casa. Provavelmente o marido chegaria bem tarde, afinal era sexta-feira e ele ia querer beber até altas horas. “Melhor assim”, ela pensava. O problema era em que algum momento ele ia aparecer e, com isso, viria alguns tapas, discussões desnecessárias ou, até mesmo, o sexo forçado.
            Perguntou-se até quando aquilo iria durar. Perguntou-se onde estava a magia do amor que um dia sentiu pelo marido, do frio na barriga que sentiu nos primeiros encontros e no casamento.
            Sentia falta da proximidade da família e dos amigos. Naquele momento, o contato era somente com pessoas do dia a dia: colegas de trabalho, atendentes do supermercado, alunos e as poucas pessoas que correm tão cedo quanto ela. O lado bom da indiferença do marido é que ele mal notara quando Cíntia passou a acordar uma hora mais cedo três dias por semana para correr. Talvez o sono pesado de Fernando não o permita dar falta da esposa.
            Cíntia sentou na cama e ligou o celular. Como de costume, deu uma rápida olhada nas redes sociais. Não tem o costume de compartilhar fotos e opiniões, mas gosta de se sentir acessível a quem finge interesse.
            Uma postagem específica chamou a atenção de Cíntia. Um evento marcado para o fim daquela tarde. O lançamento do livro Eu sei, ela sabia, de Agatha Azevedo. Por que tudo aquilo, o título, a sinopse e o nome da autora, pareciam tão familiares? Era tão absurdo que até parecia mentira.
            Cíntia e a “autora” estudaram juntas na faculdade e aquela história foi escrita pela própria Cíntia. Na época, ela era uma ingênua e sonhadora estudante que acreditava ser possível alcançar as estrelas. Certa noite, após horas de estudos, quando a mente não aceitava mais nada, além de conversas despretensiosas ao som de Go lei it out, do Oasis, a moça confessou que tinha um romance pronto, que gostou de escrevê-lo, mas que estava incerta quanto ao seu potencial. Agatha, a suposta amiga, se ofereceu para ler o material e ficou com ele durante o resto do fim de semana.
            Na segunda-feira pela manhã se encontraram na faculdade e Agatha foi direta:
            - Não mostre isso a mais ninguém, ou darão risada na sua cara. Talvez, com um pouco mais de prática, você possa acabar melhorando, mas o que eu li definitivamente não será publicado por nenhuma editora. Jamais!
            Mais tarde, Cíntia chorou muito em seu travesseiro. Não contou a ninguém o que houve, não voltou a mencionar o romance que havia escrito antes de completar 20 anos e, aos poucos, começou a enterrar em seu coração o desejo de se tornar uma escritora.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A dobradinha musical de John Carney

            Em 2006, Carney dirigiu um filme intimista e poético, Apenas uma vez (Once), onde um músico toca pelas ruas de Dublin e conhece uma moça que vende flores. Um descobre o talento musical do outro e passam a escrever canções juntos. Os sentimentos e a bagagem emocional deles ficam evidentes nas letras sensíveis que surgem.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O que “Bling Ring” pode acrescentar?


            Sofia Coppola não é mais uma novata na direção.  Conseguiu construir uma carreira sólida e premiada desvinculada do peso do sobrenome. Logicamente teve algumas regalias ao crescer no meio de tanta gente ligada ao cinema, mas ter berço não significa ter talento.
            Seu trabalho divide opiniões. Eu mesma considero As Virgens Suicidas uma memorável estreia como cineasta e seu melhor filme. Tudo bem, Encontros e Desencontros pode ser considerado maravilhoso e ter o trunfo de um Oscar de Melhor Roteiro, mas a angústia das irmãs criadas com tanta repressão e o desespero delas me impressiona.
            Coppola leu o artigo “The Suspects Wore Louboutins”, escrito por Nancy Jo Sales e publicado na revista americana Vanity Fair, e resolveu fazer um filme sobre a audácia dos jovens que roubaram casas de celebridades entre 2008 e 2009.