Cíntia acordou.
Parecia que
aquele seria mais um dia, igual aos anteriores. Corrida, trabalho na escola
onde dava aulas, casa. Provavelmente o marido chegaria bem tarde, afinal era
sexta-feira e ele ia querer beber até altas horas. “Melhor assim”, ela pensava.
O problema era em que algum momento ele ia aparecer e, com isso, viria alguns
tapas, discussões desnecessárias ou, até mesmo, o sexo forçado.
Perguntou-se
até quando aquilo iria durar. Perguntou-se onde estava a magia do amor que um
dia sentiu pelo marido, do frio na barriga que sentiu nos primeiros encontros e
no casamento.
Sentia
falta da proximidade da família e dos amigos. Naquele momento, o contato era
somente com pessoas do dia a dia: colegas de trabalho, atendentes do
supermercado, alunos e as poucas pessoas que correm tão cedo quanto ela. O lado
bom da indiferença do marido é que ele mal notara quando Cíntia passou a
acordar uma hora mais cedo três dias por semana para correr. Talvez o sono
pesado de Fernando não o permita dar falta da esposa.
Cíntia
sentou na cama e ligou o celular. Como de costume, deu uma rápida olhada nas
redes sociais. Não tem o costume de compartilhar fotos e opiniões, mas gosta de
se sentir acessível a quem finge interesse.
Uma
postagem específica chamou a atenção de Cíntia. Um evento marcado para o fim
daquela tarde. O lançamento do livro Eu
sei, ela sabia, de Agatha Azevedo. Por que tudo aquilo, o título, a sinopse
e o nome da autora, pareciam tão familiares? Era tão absurdo que até parecia
mentira.
Cíntia e a
“autora” estudaram juntas na faculdade e aquela história foi escrita pela
própria Cíntia. Na época, ela era uma ingênua e sonhadora estudante que
acreditava ser possível alcançar as estrelas. Certa noite, após horas de
estudos, quando a mente não aceitava mais nada, além de conversas
despretensiosas ao som de Go lei it out,
do Oasis, a moça confessou que tinha um romance pronto, que gostou de
escrevê-lo, mas que estava incerta quanto ao seu potencial. Agatha, a suposta
amiga, se ofereceu para ler o material e ficou com ele durante o resto do fim
de semana.
Na
segunda-feira pela manhã se encontraram na faculdade e Agatha foi direta:
- Não
mostre isso a mais ninguém, ou darão risada na sua cara. Talvez, com um pouco
mais de prática, você possa acabar melhorando, mas o que eu li definitivamente
não será publicado por nenhuma editora. Jamais!
Mais tarde,
Cíntia chorou muito em seu travesseiro. Não contou a ninguém o que houve, não
voltou a mencionar o romance que havia escrito antes de completar 20 anos e,
aos poucos, começou a enterrar em seu coração o desejo de se tornar uma
escritora.