Bia queria um amor.
Queria
outras coisas também. Viajar, fazer trabalho voluntário, ser um exemplo para
outras mulheres, mas, acima de tudo, ela queria um amor.
Leu livros
para não parecer fútil. Clarice Lispector, Virginia Woolf, Tolstói. Malhou, assistiu a diversos noticiários
para mostrar que é bem-informada, fez dieta, estudou e publicou fotos
diariamente em suas redes sociais. Viu filmes de “diretores que dirigem para
pessoas cultas”. Bergman, Antonioni, Godard e Malick. Ouviu Caetano Veloso,
Marisa Monte e Chico Buarque. Usou salto alto.
Mas nada
durava mais do que algumas semanas.
“O que
acontece com os homens? Estão com medo das mulheres independentes e
inteligentes?”
Não
entendia o motivo para que, mesmo com tanto esforço, ninguém ficava e Bia odiava
as justificativas.
“Vou voltar
para a minha ex”.
“Não quero
nada sério, por enquanto, quero focar na minha carreira”.
“Não é
amor, então não vou te iludir”.
“Ainda
gosto de uma garota que conheci quando estava no ensino médio”.
“Não tenho
tempo”.
“Minha
família vai mudar para outro estado”.
Bia começou
a ficar deprimida. Ainda lia, mas agora por puro hábito. Parou de malhar, mas manteve
algumas particularidades da dieta. Parou de ver os noticiários porque tanta
coisa ruim a deixava ainda mais pra baixo. Não tirou mais fotos. Continuou a
estudar porque não se permitiu largar algo pela metade.
Continuou
deprimida.
Parou de se
maquiar.
Não se
animava mais.
Tudo porque
Bia queria um amor.
Na verdade,
não sabia mais se ainda queria. Quando se quer muito algo e percebe que não vai
conseguir a vontade passa. Vira algo como antigo objetivo.
Bia
continuava deprimida.
Usou
sapatilhas e percebeu que eram incrivelmente confortáveis.
Passou a
ler coisas que a interessavam de verdade, não o que era considerado título para
“pessoas inteligentes”. Divertiu-se muito lendo Agatha Christie, Stephen King, Julio
Verne e quadrinhos.
Sorriu.
Passou a
ver filmes que chamavam a sua atenção para passar o tempo. David Fincher,
Christopher Nolan e Wes Anderson. Questionou a si mesma o motivo de ter se
privado por tanto tempo daquilo tudo.
Ouviu Fiona
Apple e Alanis Morisette e se identificou.
Sorriu
mais.
Certo dia,
conheceu por acaso um rapaz chamado Renato.
Renato era
legal. Inteligente, educado, beleza discreta, sorriso tímido e sem pendências
sentimentais.
Bia sorriu.
Bia se
maquiou. Usou salto alto, comentou Antonioni, Caetano, os conflitos na África e
o suicídio de Sylvia Plath.
Renato foi
embora, achava Bia muito chata.
Bia ficou
deprimida de novo e disse que nunca mais passaria por aquilo. Tentou encontrar
uma resposta em si mesma e encontrou.
Renato
sumiu porque Bia havia sido moldada. Aquela garota com opinião formada,
estudada e culta foi projetada para ser aquilo tudo. Renato também queria um
amor. A diferença é que ele preferia um amor simples e natural, daqueles que
surgem do nada e sem motivo.
O que é
projetado ele prefere deixar de lado porque o amor não é assim. Ele acontece.
Simples assim.
Mas Renato
já estava longe.

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