domingo, 23 de agosto de 2015

Natasha

Ela tinha planos viajar pelo país vendendo os quadros que pintava, mas a mãe insistia em dizer que o melhor era parar de ficar sonhando alto e ir procurar um emprego. Qualquer um. Atendente de lanchonete, auxiliar de biblioteca, operadora de caixa. Um emprego que a ocupasse por tempo o suficiente para impedi-la de ficar pensando em inutilidades. As palavras machucam, parece que nem todos percebem. Ou percebem e fazem questão de mutilar o próximo.
        Natasha não se deixou abater. Continuou pintando. Sabia que a mãe costumava pintar quando jovem e que parou quando engravidou de um homem casado que se recusou a assumir a paternidade do bebê. Na época, tinha um emprego “convencional”, mas também pintava no tempo livre. Tinha potencial.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Tainá

Aos 16 anos, Tainá conheceu um garoto no colégio, Henrique, um garoto de origem japonesa. Viraram amigos quase instantaneamente e a amizade evoluiu para um sentimento mais forte. Ele foi o primeiro namorado dela e a sintonia entre eles era inegável. Eles tinham vontade de conhecer os mesmos lugares, os planos profissionais e pessoais dos dois eram parecidos e tudo era lindo.

        Depois do colégio eles foram para a mesma faculdade e escolheram o mesmo curso, Jornalismo. Eles tinham planos de criar um site de coberturas de eventos cinematográficos juntos e pretendiam começar a desenvolvê-lo ainda na faculdade.

        Em uma festa promovida por colegas de faculdade, os dois fumaram maconha pela primeira vez. Tainá achou apenas legal, enquanto Henrique gostou mais, mas não entendeu o motivo de tanta gente fazer alarde em cima disso.

        Em outros eventos sociais, amigos ofereceram maconha a eles novamente. Tainá passou a recusar, não viu tanta graça na primeira vez e acredita que não veria na segunda ou na terceira. O Henrique passou a fumar sempre que lhe ofereciam a erva. Tainá não via problema algum nisso, fumar apenas em eventos sociais, uma ou duas vezes por mês não devia fazer mal.

        Aos poucos, Henrique começou a sair mais vezes com um rapaz que não era da turma deles, o Tadeu, que sempre tinha maconha. Tainá não gostava de sair com ele e, como muitas vezes o programa era assistir a lutas na casa de alguém ou jogar vídeo-game, ela preferia fazer outras coisas.


        Certa vez, a garota combinou de passar na casa do namorado depois de uma consulta médica, mas o médico teve uma emergência familiar e a consulta foi desmarcada, então ela foi pra casa de Henrique antes do esperado. Quando chegou ao quarto dele, ficou surpresa ao ver o namorado acompanhado do Tadeu cheirando cocaína.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Identidade

Mamãe diz que eu devia ser professora.
Papai sonha em me ver médica.
Titia acredita que meu futuro está no teatro.
Vovó já deixou claro que só serei feliz se me tornar advogada.
Querem que eu faça uma colcha com os retalhos dos sonhos que um dia foram deles.
E onde ficam os meus?
Nenhum deles está disposto a percorrer os caminhos que preciso para chegar a algo que eles desejam. Isso tudo me confunde.
Vou acabar virando um quadro pintado por desejos alheios. Não terei título, assinatura ou traços da minha personalidade.
Serei um amontoado de pequenas coisas e não serei nada.